RESENHA

Honestino: a vida, o filme e a utopia subversiva

Por Inês Ulhôa

“Honestino: o filme”, com cenas gravadas na Universidade de Brasília, permite reconstruir o fio das memórias de um tempo de obscuridade e de resistência, mas também de histórias contadas e que ainda se contam para se falar de horizontes de libertação ou da conscientização necessária diante de um sistema opressor.

Clique para ampliar

O filme sobre o líder estudantil Honestino Guimarães, inspirado nos livros “Honestino, o bom da amizade é a não cobrança” (Da Anta Casa Editora), de Maria Rosa Leite Monteiro, sua mãe, e “Paixão de Honestino” (Editora UnB), de Betty Almeida, sua amiga em tempos de UnB, traz a importância de revisitar o passado como uma dimensão permanente da consciência humana para a qual se torna indispensável a ação da memória em um chamado do presente. A abordagem da potência do pensamento radical de Honestino Guimarães no filme dirigido por Aurélio Michiles, produzido por Nilson Rodrigues e estrelado por Bruno Gagliasso, revela a audácia do amor revolucionário e da esperança com que ele trilhou caminhos para ser e estar no mundo e com o mundo.

Quando nas primeiras páginas de seu livro Maria Rosa descreve a sua saga em busca de deixar viva a memória de seu filho desaparecido, aos 26 anos, pela ditadura militar, o leitor logo percebe que terá pela frente uma obra com o valor de um testamento. Baseado em informações da imprensa, depoimentos, entrevistas, reprodução de poemas e de impressões pessoais de Honestino (“há uma parte de sua vida que conheço melhor do que ninguém”), Rosa Monteiro procurou com essa biografia presentificar a memória de Honestino Guimarães como necessidade da história. Afinal, “tudo se resumirá na vida de um homem que nasceu, cresceu, sonhou, lutou, morreu e venceu. Sim, venceu! Porque deram fim ao seu corpo, não às suas ideias, e você permanece vivo”, diz a mãe atormentada pela falta de notícias do filho.

A história do país e o período sombrio da ditadura militar irrompem igualmente nas páginas do livro, seja pela reprodução de notícias de jornais, entrevistas e depoimentos, seja pelos lindos poemas contagiantes com os quais nos legou Honestino Guimarães, que, com ternura e lucidez, denunciava a condição em que vivia o povo brasileiro sob a opressão. Seus poemas expõem as tensões, mas também seu amor ao mundo, festejando e lutando por um mundo liberto e igual, como este a seguir, que escreveu em plena juventude, aos dezoito anos de idade:

Eu espero a festa do mundo inteiro

a cantar a manhã que chegou mais bela

que as outras manhãs, porque a noite

que a precede é uma noite mais negra

que o comum das noites todas

Eu espero a festa do mundo

mas também eu a construo

anônimo entre tantos, mas ligado

a todos porque a festa do mundo

que vai chegar é a festa da manhã geral

Eu construo a festa do mundo

armado das minhas convicções

que são as verdades do mundo

que são as verdades do homem

Eu construo a verdade do mundo

E a busco na igualdade de todos

E na liberdade do homem

Pois eu construo a festa

cantando e lutando por um mundo

liberto e igual, pelo mundo que vai chegar

com a manhã mais bela que as manhãs

todas com as festas dos homens livres.

E eu luto pela festa do mundo.

(novembro de 1965)

Essas impressões são espelho da vida curta, porém intensa, do líder estudantil, que trazia o sentimento trágico da vida desde a sua adolescência quando descobriu as desigualdades sociais. Mesmo assim, viveu com paixão cada minuto de sua existência, prevendo suas poucas chances de sobrevivência em meio a truculência do regime ditatorial, como narrou seu irmão Luis Carlos (também liderança estudantil, vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes Secundaristas de Brasília) ao enfatizar a coragem idealista de Honestino, em trecho do livro de Maria Rosa:

Um dia, quando eu o encontrei em São Paulo, já foragido, e lhe perguntei se não tinha medo, ele me respondeu: “Não. Tenho consciência de que quando botarem as mãos em mim, vão me matar. Eu me preparo todos os dias para isto. Não quero estar despreparado”.

Militante da esperança

A estrutura do livro de Maria Rosa parece espelhar a reflexão de todos que conviveram com Honestino, e também daqueles que quiseram conhecê-lo após o seu desaparecimento, sobre a personalidade marcante e o olhar arguto sobre as mazelas do mundo deste militante da esperança. O grau de importância do livro de Maria Rosa se mede pela soma de lembranças e das paixões vividas em família e com amigos, mas também de desafios diante do sofrimento da ausência. Ela mesma se revela uma mulher totalmente investida de um amor profundo e desmedido em sua busca desesperada pelo filho desaparecido. Bateu em todas as portas possíveis na tentativa de obter respostas ao desaparecimento do filho. Ouviu até promessas de visita a Honestino na cadeia, para a qual se preparou com o coração cheio de esperança… Em vão.

Na obra, delineiam-se os aspectos da infância, da juventude, da paternidade, da amizade (“o bom da amizade é a não cobrança”, costumava dizer Honestino Guimarães, por acreditar que uma vida sem amigos não era realmente digna de ser vivida), da militância e da convicção de seu filho na luta por transformação social. Maria Rosa quis, com essa publicação, fazer indispensável a ação da memória, o resgate da lembrança para as futuras gerações. Afinal, para ela, Honestino não poderia ficar “desaparecido” até ao ponto de diluir-se, se nada ficar registrado:

Não, filho, a única maneira de preservar a sua imagem é continuar sua obra, penso eu, é fazer o que estou tentando, deixar reproduzida, em milhares de exemplares, sua história. Uma vida bonita, dedicada ao amor ao próximo, preocupada com o bem do mais fraco, numa renúncia total de tudo aquilo que significa amor, afeto, valor em sua vida sentimental. Você venceu a si próprio, vencendo seus sentimentos de pai, esposo, filho, irmão e amigo em prol da causa que acreditava, em prol da justiça social, da luta pelos mais fracos. Você foi realmente forte.

Honestino Guimarães era uma pessoa rara, um jovem idealista que se depara com um mundo onde se faz necessário lutar por justiça social. Imbuído da crença do esperançar, com ética e solidariedade, precisou tanto do sonho quanto da utopia em sua caminhada para ser útil diante da sombria realidade que se abateu sobre o país, sem perder a ternura, como bem explicita sua ex-companheira Isaura e mãe de sua única filha:

Era uma pessoa absolutamente amorosa em todos os sentidos. Amoroso com os amigos, com os companheiros […]. Gui era uma pessoa que levava muito a sério o lado amoroso da vida e da relação com as pessoas. Eu acho isto um lado muito grande dele.

Em sua concepção do mundo, da política e dos valores éticos, Honestino Guimarães foi, como sua mãe afirmara, “um pássaro que se sentia com direito de voar pelo universo inteiro”, e como ele mesmo se expressa em carta a seus familiares, em maio de 1972, já em tempos do aumento da repressão e de clandestinidade:

O problema é que vivemos tempos duros. Tempos difíceis e fica pesado o fardo. Mas não dá pé deixarmos ser esmagados por este fardo…

A vida é amar, é o coletivo sobre o indiviual, é o movimento e o progresso em tudo. Mesmo que seja difícil de se ver isto. O resto é a antivida. Ou a morte. Por isso tem tanta gente que fala, age, “vive”, sobrevive carregando fardos. Por isso é que tem tanta gente que vive de bem com a morte e não com a vida. Com o velho das coisas e não com o novo. São os mortos-vivos do Henfil.

Processo de conscientização

A procura da compreensão da perversidade moral e do espanto diante das atrocidades que atingiam jovens estudantes idealistas de um mundo de paz, além do expressivo ódio à cultura e ao conhecimento materializado nas censuras de músicas e peças teatrais, é um exercício que alcança relevância diante do terror da violência que assombrou a juventude e aqueles que ousaram sonhar e se moveram para encontrar caminhos para muito além daqueles tempos sombrios.

Há pouco mais de sessenta anos do fatídico golpe militar, é importante realçar, como alertou Paulo Freire (In Pedagogia da Indignação), que “o estudo do passado traz à memória de nosso consciente a razão de ser de muitos dos procedimentos do presente e nos pode ajudar na compreensão do passado” – um passado repleto de sangue, de torturas e de assassinatos cometidos pelo regime ditatorial, que foi capaz de todas as barbáries contra aqueles que lutavam contra a fúria de homens cruéis e sanguinários.

Nesse sentido, a cinebiografia de Honestino Guimarães expressa a reflexão consciente sobre as circunstâncias históricas e políticas daquele período e se junta ao pesadelo que nos tomou de assalto nos tempos atuais no conflito entre a verdade e a mentira descarada em que para manter o poderio de uma classe sobre a outra, mentiras são fabricadas, pois elas, como disse Hannah Arendt (A mentira na políticada, In Crises da República), são “frequentemente muito mais plausíveis, mais clamantes à razão do que a realidade, uma vez que o mentiroso tem a grande vantagem de saber de antemão o que a plateia deseja ou espera ouvir”.

Sobre Honestino Guimarães sempre há o que ser dito em seu movimento pela história e na sua razão de desejar a ação transformadora do mundo. Mesmo diante das evidências de risco à sua vida, nada abalou suas convicções na crença de acabar com as injustiças e de lutar pela liberdade, ou como descrito pelo seu irmão Norton, ao lhe oferecer um passaporte para deixar o país: “ele me fez um discurso: ‘… que seu povo era este, que o seu país era este, que ele iria lutar até o fim pela queda da ditadura militar…’”. Uma manifestação de amor ao bem comum, à ética e à solidariedade, que tanto mobilizou a sua história.

Vozes resistentes

O movimento estudantil no Brasil sempre foi atuante em sua luta por um sistema educacional que pudesse contribuir e promover a igualdade e a dignidade do ser humano. Representado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), criada em 1937, o movimento estudantil se posiciona em defesa da democracia e contra qualquer forma de opressão, com participação em momentos cruciais da nossa história, como os tempos obscuros da ditadura militar em que foi a vítima preferencial da brutalidade dos algozes de plantão. Entre muitos perseguidos, presos, torturados, desaparecidos, existiram aqueles, que, como o estudante Honestino Guimarães, se postaram com dignidade e brilhantismo em sua liberdade para lutar e ser útil ao mundo, como destaca Arendt (In Homens em tempos sombrios), ao referir-se a algumas pessoas que tiveram voz resistente para denunciar as monstruosidades de uma época e fazer brilhar a esperança:

Que mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra – essa convicção constitui o pano de fundo implícito contra o qual se delinearam esses perfis. Olhos tão habituados às sombras, como os nossos, dificilmente conseguirão dizer se sua luz era a luz de uma vela ou a de um sol resplandecente.

Essa referência só nos faz lembrar o quanto precisamos da memória para a compreensão do passado e para a necessidade de superar aquelas marcas indeléveis e características de tempos sombrios, como os que os brasileiros vivenciaram nos 21 anos que durou a ditadura militar, quando se reproduziram de canto a canto do país que esses jovens combatentes eram terroristas – pois como sempre ocorre na história, não basta atacar as ideias, é preciso desacreditar quem as produziu. Por isso, uma simplificação é impossível para a potência que se extrai desse filme, dando sentido à existência de Honestino Guimarães, com valor social e histórico, ainda que tenha sua dimensão pessoal.

Assim, quando consideramos o real significado da homenagem representada pelo filme de Aurélio Michiles à presença de Honestino Guimarães neste mundo e de sua vontade de liberdade, temos razão de sobra para confirmar que Honestino tinha a luta contra a aceitação da desumanização como uma ética da vida, pois esta tem como princípio absoluto a dignidade da vida humana e a libertação do povo oprimido. Michiles, também ex-aluno da UnB, teve convívio direto com Honestino no movimento estudantil e se considera cúmplice dessa história referendada pela verdade, com a ideia de que Honestino não só foi produto da história, como também exerceu influência histórica, pois foi interferidor nos processos de conhecimento e de conscientização que orientam para uma práxis da libertação. E, certamente, ainda hoje, continua despertando consciências adormecidas através de sua história e de pessoas, camaradas, que o conheceram e puderam sentir a boniteza que brotou de sua vida e de seus sonhos, procurando unir vozes e lutas por direitos humanos.

É o que se pode depreender sobre o que nos contou Betty Almeida sobre Honestino em seu livro. A autora recupera na obra “Paixão de Honestino” a trajetória do militante libertário e traz aos leitores de hoje a reflexão do que essa memória pode significar nos dias atuais para os que ainda lutam por liberdade e por uma sociedade menos injusta e desigual. O livro de Betty Almeida é uma obra engajada, sem mistificações, apenas um instrumento da memória em relação aos anos de chumbo e como ele pode nos conduzir à intensidade da história vivida por Honestino Guimarães e por muitos de seus companheiros de luta dentro do movimento estudantil, que atribuíram a si um papel histórico e que trilharam caminhos para “ser” e “estar” no mundo e com o mundo.

A utopia que mobiliza a história

Foi nesse ambiente que se forjaram concepções de mundo e da ideologia legitimadora do bem viver, que eram amplamente debatidas e que despertaram nos jovens o sentimento da brasilidade revolucionária, amparada nos exemplos da revolução cubana e nos ensinamentos de Che Guevara. A essas utopias transformadoras seguiram-se o caminho para a resistência nas manifestações de rua e nas greves estudantis. Estão contidos na narrativa de Betty Almeida muitos dos fundamentos históricos e sociais do movimento estudantil e do período em que durou o golpe e de como ideias radicais despontavam entre a juventude mais combativa. Honestino Guimarães, mesmo tendo sido preso em cinco ocasiões (a última resultou em seu desaparecimento), se manteve firme em seus princípios; lutava pela democratização do país, mas não queria a luta armada, porque acreditava na mobilização de massas, na luta a longo prazo. Bruno Gagliasso deu voz àquilo que não se pode esquecer jamais; encarnou a humanidade que havia em Honestino de forma magistral, interpretando o encorajamento do líder estudantil para as escolhas necessárias no processo que se deseja da libertação em uma perspectiva de esperança e fé na vida.


“Honestino: o filme”, já nos cinemas, nos remete à questão fundamental que está na maneira crítica com a qual devemos entender a presença do passado nos procedimentos do presente, como bem alerta Paulo Freire (In Pedagogia da Indignação) segundo o qual, o estudo do passado traz à memória de nosso corpo consciente a razão de ser de muitos dos procedimentos do presente. Situação essa bem exemplificada pelo diretor ao decidir-se pela realização do filme surpreendido pela súplica de setores da sociedade brasileira pela volta da ditadura militar, tentando novamente impor seu pesado silêncio sobre nós: “temos de novo olhar para o passado para que ele não se repita…por isso eu precisava contar essa história, não só a do Honestino como exemplo de uma juventude que reagia contra a ditadura, como também a de uma universidade que não ficou de joelhos diante da repressão”, justifica Michiles em entrevista a Juca Kfouri, ressaltando que a motivação final para a realização do filme veio a partir do episódio da reinauguração de uma ponte em Brasília, que carregava o nome de um dos algozes da ditadura e foi renomeada “Ponte Honestino Guimarães”, e na ocasião, Lucas, o neto de Honestino, de apenas 16 anos, fez uma fala exaltando a memória de seu avô.

A cinebiografia de Honestino Guimarães é um acontecimento histórico que, ao revelar uma memória de resistência como princípio orientador da práxis da libertação, dialoga com uma ética da afirmação da identidade e da dignidade do ser social no processo de transformação do real pela ação. Trata-se de um filme revelador de memórias que se robustecem a partir de depoimentos de familiares, amigos e militantes daquele período, em uma complexa articulação de vozes e de histórias contadas que resistem aos silenciamentos e servem para a libertação, lembrando que pessoas como Honestino Guimarães não se tornariam referências para gerações futuras se seus ideais e sua ação não colocassem o mundo em movimento com a compreensão do conhecimento como condição crítica de transformação das determinações sociais e tendo como perspectiva a reinvenção permanente da política. Para o diretor Aurélio Michiles, esse filme é a possibilidade de alertar esta nova geração (a do neto de Honestino e de seus próprios filhos), que vive nessa atmosfera distópica do mundo, para olhar para essa pessoa que deu sua utopia pela transformação do mundo.

Dessa reflexão que o filme ‘Honestino’ nos traz é possível compreender que o vigor da radicalidade histórica do pensar, ao depositar a esperança nas consciências que se intersubjetivam em comunhão, é uma tentativa de superar a opressão e de compreender que a luta contra a dominação só pode alcançar seus fins se se propuser a romper as estruturas para fazer surgir um mundo novo com homens e mulheres descobrindo-se como sujeitos de sua própria destinação histórica. E não existe outra saída senão a solidariedade entre os seres humanos. Sem dúvida, resta ainda muito caminho a percorrer, mas a esperança, do verbo esperançar, como ensinou Paulo Freire, ainda é um trecho deste caminhar.

Honestino Guimarães faz parte da lista dos 434 mortos e desaparecidos políticos reconhecidos pela Comissão Nacional da Verdade.

Ditadura nunca mais! Para que nunca mais se repita! Honestino, presente!

Acessar o conteúdo