RESENHA
A visão profética de William Blake em dois cantos
Por Inês Ulhôa
Editora UnB publica “Milton: um poema em dois cantos”, a magistral obra do ilustrador e poeta inglês William Blake, traduzida por Juliana Steil. Esta edição, publicada em inglês e português, traz as belíssimas ilustrações de Blake para essa obra
Intelectualmente curioso e de forte imaginação criativa, por isso considerado por muitos como visionário, ou até “louco”, na verdade William Blake (1757-1827) tinha mesmo era uma alma poética. Considerado um dos grandes pensadores de sua época, Blake, que viveu o período de grandes transformações sociais e políticas com o desenvolvimento dos ideais iluminista e a Revolução Industrial, supunha que as reais mudanças no mundo não advinham de causas físicas ou materiais, mas a partir de manifestações espirituais que não eram expressadas corretamente tendo em vista a limitação da linguagem humana. Poeta, ilustrador e pintor, começou a escrever poesias aos 12 anos e estudar desenho aos 14. Seus desenhos – ele alegava – provinham de suas visões de anjos. O próprio Blake defendia possuir mediunidade ao proclamar que as suas obras foram inspiradas pelos que já vivem no plano espiritual. Suas obras, motivadas principalmente por temas religiosos, são caracterizadas pelo dualismo entre o bem e o mal, pela crítica à religião tradicional institucional e influenciadas pelos conflitos de seu tempo e por sua recusa às ideias dominantes daquele período histórico.
William Blake tinha por hábito ilustrar as páginas em que escrevia os poemas, desenvolvendo, mais tarde, uma técnica de impressão original, chamada illuminated printing (impressão iluminada), na qual utilizava uma mesma matriz de cobre para imprimir o texto e os desenhos em uma mesma página. Sua arte textual e visual estão entremeadas em seus livros de forma inconfundível, com a união da poesia e da imagem em que ambas se complementam para formar uma bela obra. É o caso de “Milton: um poema em dois cantos” (escrito e ilustrado entre 1804 e 1810), poema épico que tem como tema o lendário John Milton, autor de “Paraíso perdido”, livro recém-publicado pela Editora UnB.
Um traço marcante do poema “Milton” é o fato de o autor promover “a união de um programa épico surpreendente com uma forte vocação lírica, além da combinação idiossincrática de poesia, gravura e pintura”, pontua a tradutora da obra para esta edição Juliana Steil. O artista também ficou bastante conhecido pelas exuberantes ilustrações no livro “A divina comédia”, de Dante Alighieri, publicado inicialmente no século XIV e dividido em três partes: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.
De acordo com Mark Crosby, autor do texto de introdução da edição publicada pela Editora UnB, esse livro pode ser apreciado como “um drama psicológico em que se desenvolve a tentativa do poeta/artista de reconectar-se com sua imaginação criativa, como uma alegoria religiosa repleta de simbolismo bíblico que reformula e critica o mito da criação do cristianismo ortodoxo e de diversas doutrinas religiosas; como um comentário social sobre as várias injustiças da sociedade da época; como uma mediação entre as culturas literária e visual de então; e como o primeiro movimento de uma grande narrativa mitológica que conta a fragmentação e reunificação do gigante Álbion[i], que representa ao mesmo tempo um indivíduo e toda a humanidade”. Tentando compreender os transtornos das revoluções que atingiam a Inglaterra/Álbion, destruindo o espírito da imaginação poética, Blake, já na abertura do poema, se pergunta (conforme a tradução de Juliana Steil): “Será que andaram na Inglaterra/ Aqueles pés em tempo antigo?/ Na verde paz dos nossos prados/ O Santo Cordeiro foi visto?/ E a Face Divina brilhou/ Nas nossas montanhas nubladas?/ E junto aos Moinhos Satânicos/ Jerusalém foi levantada?/ Trazei minhas Setas audazes!/ Trazei o meu Arco de ouro!/ Trazei minha Lança e que aclare!/ Trazei o meu Carro de fogo! / Não descanso a Espada Mental/ Não vou cessar a minha Guerra/ Até vermos Jerusalém/ Nos verdes prados da Inglaterra/ Quem dera que todo o povo do Senhor fosse Profeta”.
William Blake é considerado um dos mais importantes artistas do Romantismo britânico, fortemente influenciado por John Milton, tendo-o como mentor poético, chegando a afirmar ter escrito suas poesias “sob a direção do Espírito Milton”. Milton e a Bíblia ocuparam posições privilegiadas em sua imaginação criativa, afirma Crosby em seu prefácio. Para Blake, Milton era superior até mesmo a William Shakespeare, mas também acreditava que Milton não soube interpretar devidamente o papel de Deus e do Diabo nas revoluções de sua época. Segundo ele, o autor do épico poema “Paraíso Perdido”, publicado em 1667, não colocou Satã no seu devido papel – John Milton narra as penas dos anjos caídos, após a rebelião no paraíso, o ardil de Satanás para fazer Adão e Eva comerem o fruto proibido e a queda do homem. Em Milton, Satã era o grande vilão, já Blake tinha a crença de que o Diabo não era um oponente, mas uma grande força criadora que sustentava a imaginação criativa dos poetas. De acordo com Crosby, quando Blake passou a compor “Milton”, “sua antiga opinião de que John Milton era ‘da parte do Diabo’ transformou-se em um desejo de redimir o autor de ‘Paradise Lost’ de uma série de erros. Isso em parte porque Blake concluiu que o cristianismo de Milton havia sido corrompido pela perspectiva materialista ou naturalista do divino em vez de decorrer de uma relação mais direta, como a inspiração divina”
Para Blake, o conhecimento consiste em descobrir a imaginação pela ação: “minha missão é criar”, dizia ele. Dessa forma, segundo o prefaciador desta edição, em “Milton”, Blake ocupa os papéis de personagem e de narrador: “em determinada cena, ele caminha no jardim de sua casa em Felpham quando testemunha o Milton do título do poema fusionando-se com seu espectro e depois se unindo a sua emanação, Ololon, para então se transformar em ‘um homem uno Jesus Salvador’”. Crosby vai dizer ainda que Blake e John Milton não são as únicas figuras da vida real no poema. “Ele combina indivíduos e acontecimentos da história britânica, bem como personagens, acontecimentos e lugares da Bíblia, com o conjunto de personagens do sistema mitopoético do próprio Blake”.
“Milton: um poema em dois cantos” sobrevive ao tempo e chega até nós, depois de dois séculos, com a atualidade dos símbolos que representam as estruturas de ascensão e queda dos meios de dominação política ou religiosa, “onde o pensar o humano é prensado pela férrea mão do Poder” (Lâmina 25, na tradução de Juliana Steil), ou nas palavras de Crosby: “a leitura de ‘Milton’ será obrigatória para quem deseja limpar as portas da percepção e enfrentar o idiossincrático, exigente e muitas vezes desconcertante sistema mitopoético de Blake”.
[i] Nome mais antigo atribuído à Grã-Bretanha. William Blake, em sua mitologia, interpreta Álbion como o gigante primevo.
