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Cadê o leitor?

Pesquisa revela um triste quadro sobre a leitura no Brasil. A Editora UnB compartilha a preocupação com os desafios necessários ao enfrentamento da questão e que podem ser traduzidos em atividade educativa libertadora e formadora do pensamento crítico.

Inês Ulhôa

No ano de 2002, a revista Correio do Livro da UnB, publicou uma reportagem, com este mesmo título, sobre o baixo índice da leitura no Brasil revelada pela primeira pesquisa da série “Retratos da Leitura no Brasil”, encomendada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), e divulgada em julho de 2001. Na ocasião, já causou surpresa o quanto se lia pouco no Brasil em relação a outros países. Mais surpresa revela a última pesquisa realizada em 2024, 23 anos depois, a sexta da série histórica.

A reportagem da jornalista Joseana Paganine, em 2002, já trazia alguns dados preocupantes, como a existência de apenas uma biblioteca para cada dois municípios. Naquela pesquisa, 62% dos entrevistados declararam ler livros, e apenas 30% leram efetivamente pelo menos um livro nos três meses anteriores ao levantamento. Hoje, pela primeira vez na série histórica, divulgada em 19 de novembro/2024, a proporção de não-leitores é maior do que a de leitores: 53% das pessoas não leram nem parte de um livro – impresso ou digital – de qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos, nos três meses anteriores à pesquisa.

Esse panorama contradiz o que Paulo Freire pregou durante toda a sua vida sobre o engajamento com a leitura. Ele acreditava que na democratização de direitos sociais está o direito à leitura. Para Freire, “a leitura da palavra não é apenas precedida da leitura do mundo, mas por uma certa forma de ‘escrevê-lo’ ou de ‘reescrevê-lo’, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente”[1]. Freire também defendia não haver separação entre ler e escrever, pois o exercício da leitura necessariamente exige o exercício da escrita, e da própria produção de texto. “É preciso não separar a leitura da produção da palavra para ser lida de novo. Fora disso não tem sentido a leitura”[2]. Freire entendia que a importância estratégica da educação popular, que coloca a “leitura do mundo” como um de seus princípios básicos, está em contribuir pedagogicamente com a organização política e social dos sujeitos oprimidos, em seu processo de conhecer, fazendo emergir a sua cultura e elevando-os à condição de sujeitos da sua própria libertação.

No entanto, apenas dominar a leitura das letras não constitui um fim em si mesmo, reduzido ao ato mecânico de transcrever palavras. Para além disso, a leitura deve estar associada ao desenvolvimento da curiosidade e da capacidade de pensar e entender o mundo. Primeiro, o educando codifica a escrita para depois apreendê-la socioculturalmente; essa experiência de codificação capacita-o a compreender e a questionar sua realidade a partir da curiosa exploração de seu cotidiano. Deste modo, ao perceber as ligações da palavra em seu contexto sociocultural, o educando vai se dar conta dos sentidos da palavra, que estão associados ao seu dia a dia. As palavras precisam ser interpretadas para que façam sentido, assim é que o educando aprende a dizer a sua palavra, a sua realidade, aliada aos fatores educação, desenvolvimento do pensamento crítico e criatividade.

Da mesma forma, mais que escrever e ler que a “asa é da ave”, os alfabetizandos necessitam perceber a necessidade de um outro aprendizado: “o de escrever a sua vida, o de ler a sua realidade, o que não será possível se não tomam a história nas mãos para, fazendo-a, por ela serem feitos e refeitos”[3]. O educando, na teoria freireana, já traz com ele uma subjetividade, uma experiência de vida com bagagem de ideias e desejos associados ao seu cotidiano. Portanto, o vivido e o familiar, que fazem parte do entorno cultural dos educandos, constituem instrumentos para despertar o interesse na aprendizagem da escrita e da matemática. Ao perceberem isso, as palavras saltam e são espontaneamente assimiladas, memoráveis; tornam-se elementos que os fazem entender a sua realidade, e para, então, tornarem-se conscientes de que são sujeitos de ação, protagonizando as próprias histórias.

Voltando ao problema da pouca leitura que a pesquisa revela – a prática da leitura em sala de aula, de apenas 19% – é preciso pensar ou debater o papel das escolas neste panorama. Mas de que escolas estamos falando? A teoria educativa crítica de Paulo Freire outorga à pedagogia um lugar central na transformação social e à escola a faculdade de possibilidade e de importância para a construção de uma sociedade justa e solidária, assim como o papel do educador, a quem cabe facilitar o diálogo com o educando em uma relação horizontal, nunca de autoridade sobre o educando. Esse processo implica necessariamente o enfrentamento com a cultura dominadora por parte dos oprimidos que passam a ter a percepção do mundo opressor. Por isso, Freire distinguia a “educação libertadora” e a “educação bancária”.

Para ele, a “educação bancária”, corresponde a um modelo educacional que impõe a cultura do silêncio, da submissão, da dominação, do controle sobre o pensar e sobre a ação, pois quanto mais se impõe a passividade aos educandos, tanto mais ingenuamente eles tendem a se adaptar ao mundo em vez de transformá-lo, o que satisfaz apenas aos interesses dos opressores. Em tal tipo de aprendizagem não há a “pergunta”, não há questionamento sobre a realidade, por isso “o silêncio”, na educação bancária, é uma condição necessária, segundo o interesse dos opressores, dificultando, em tudo, o pensar autêntico. Já a “educação libertadora”, é construída entre educadores e educandos em busca de uma verdadeira consciência histórica intermediada pelo ato de perguntar. Em sua proposta pedagógica, Freire nomeava ao ato de perguntar a existência da curiosidade e a partir dela a capacidade de descoberta, de organizar o pensamento; ou seja, a pergunta nasce da capacidade de descoberta, é ela que vivifica o ato do conhecimento, pois todo conhecimento começa pela pergunta. A educação libertadora se alimenta da pergunta, é, portanto, a pedagogia da pergunta e um desafio constante à criatividade e à descoberta. Por isso, ele incentivava que o educador deveria exercer o ato de perguntar, de questionar, mas sem reprimir o educando, dentro de uma relação dialógica e amorosa. A educação libertadora é aquela que, na sua essencialidade, faz a opção por um processo dialógico de construção do conhecimento a partir da realidade. Nessa concepção de educação está incluído o reconhecimento de homens e mulheres como sujeitos capazes de comunicar e de transformar sua realidade e na qual os fatores do processo educativo, o sujeito, o objeto e o método, conjugam-se para libertar os oprimidos da domesticação, levando-os a desenvolver uma consciência crítica a partir do ato de conhecimento, quando se espera que o oprimido abandone sua situação de objeto de uma educação bancária, já que não pode mais ser considerado como um recipiente vazio a ser preenchido.

Interpretando o que diz Paulo Freire e a recente pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” é preciso identificar as causas para o baixo índice da leitura – um convite à reflexão sobre o que dizer também a respeito de políticas públicas voltadas ao livro e à leitura que deveriam ser consideradas  instrumentos que permitam reconhecer o caráter político da educação em seus contextos, pois se trata de um campo em disputa e em reconstrução permanente, tendo em conta a compreensão do conhecimento como uma construção humana que, por isso mesmo, pode ser analisado e modificado em proveito da libertação de povos oprimidos, e como direito humano.

O conhecimento é também a base para a realização de outros direitos humanos, além de poder auxiliar na construção da paz, visto que a atividade educativa é tanto mais libertadora, quanto mais e melhor exercer o seu papel. o conhecimento não é algo dado e acabado, mas um processo social que demanda ação transformadora dos seres humanos sobre o mundo. Existe escolhas a fazer, seja aquela educação voltada a favor da dominação, baseada no autoritarismo, no controle, na disciplina, com regras estabelecidas institucionalmente que fortalecem ideologias racistas e sexistas, ou aquela a favor da libertação, baseada na resistência à invasão cultural, por exemplo, e na defesa da inclusão, da justiça e da paz.

A percepção dos livros como objetos, “cujas formas comandam, se não a imposição de um sentido ao texto que carregam, ao menos os usos de que podem ser investidos e as apropriações às quais são suscetíveis”[4], é inspiradora para exprimir que para o feito da consciência histórica é preciso levar em conta que as transformações na realidade não são fruto simplesmente da natureza, mas da atividade humana desde um pensamento crítico que leve aos povos oprimidos as noções históricas necessárias para o desenvolvimento de uma consciência crítica coletiva que possa impulsionar as reais transformações de uma realidade opressora a subtrair a dignidade de vida.

É preciso notar ainda a concorrência da leitura de livros com o consumo das redes sociais (ganhando espaço substancial no cotidiano das pessoas) e a diferença entre as classes sociais no entendimento da capacidade de leitura em suas barreiras tanto culturais como estruturais, que a pesquisa revela. Fatos esses que podemos considerar inferidores de um período na história do Brasil, com o governo Bolsonaro, de interferências problemáticas nos campos da educação e da cultura (com a extinção do Ministério da Cultura e desinvestimentos no Ministério da Educação), que influenciaram a cognição de estudantes e do público leitor a partir da desvalorização do pensamento crítico, de mentiras e da negação da ciência.

Alguns destaques resumidos da Pesquisa Retratos da Leitura 2024, publicados pelo site Publisnews[5]:

  • 26% da Classe A disseram não gostar de ler
  • 22% da Classe B disseram não gostar de ler
  • 46% dos entrevistados considerados leitores declaram não terem lido mais “por falta de tempo”
  • Entre os não leitores, a “falta de tempo” é motivo para 33% dos entrevistados não terem lido nos últimos três meses
  • 78% dos entrevistados disseram usar a internet no tempo livre
  • 71% usa WhatsApp ou Telegram
  • 20% declararam ler no tempo livre (em 2019, a porcentagem era de 24%)
  • 63% declararam não ter o hábito ganhar livros de presente
  • Entre os leitores: 49% disseram nunca terem ganhado livro de presente
  • Entre não leitores: 76% disseram nunca terem ganhado livro de presente

A pesquisa completa de Retratos da Leitura no Brasil pode ser acessada aqui: https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2024/11/Apresentac%CC%A7a%CC%83o_Retratos_da_Leitura_2024_13-11_SITE.pdf


[1] FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se complementam. São Paulo: Cortez Editora, 52ª edição, 2021.

[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia da tolerância. Rio de Janeiro: Paz&Terra, 2022.

[3] FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz&Terra, 2021.

[4] CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Brasília: Editora UnB, 1999.

[5] Ver https://www.publishnews.com.br/materias/2024/11/26/retratos-da-leitura-2024-pesquisa-aponta-necessidade-de-uniao-em-torno-do-tema-da-leitura?mc_cid=7e4d2580d9&mc_eid=2a99381592

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