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RESENHA

Da condição feminina negra à práxis da liberdade

Por Inês Ulhôa

“Matronas Afro-pacíficas: tramas da resistência na fronteira Colômbia-Equador”, livro publicado pela Editora UnB, além de permitir aos leitores acompanhar a saga de mulheres afro-pacíficas contra as diversas formas de submissão, revela o poder que elas possuem em sua relação com a territorialidade. Lançamento será no dia 27/03, às 17h, na Livraria da UnB.

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Sob vários aspectos, o intenso trabalho de Paula Balduíno de Melo sobre matronas afro-pacíficas é simbolicamente significativo, seja pela identificação com o trabalho delas na resistência e pelo direito à diferença, no compromisso militante, seja na perspectiva crítica a partir de suas histórias de vida, de seus antepassados, influenciando relações afetivas em sua luta por emancipação.

Comecemos pelo termo que dá título à obra, não tão conhecido entre nós, brasileiros, mas que denominam as personagens do estudo de Paula Balduino. “Matronas são as sábias, as xamãs, as mais velhas a quem de alguma forma se pede conselhos […] atuando como parteiras, curandeiras, rezadeiras e cantadoras, elas indicam caminhos da existência”. Observe-se, no entanto, que o livro de Paula não se enquadra na mera homenagem ou no simples resgate da luta dessas mulheres. É muito mais!

A autora assume a postura de pesquisadora séria e comprometida com o seu estudo etnográfico, que a levou a pesquisar comunidades localizadas entre a fronteira da Colômbia e do Equador, onde as matronas exercem papel político e social de relevância incontestável na resistência ao cenário de violência e de desigualdades. O estudo revela os laços e influências impressas nas vidas dessas mulheres na construção de suas identidades, principalmente na busca de sua autonomia e nas trilhas do conhecimento que as fazem “matronas”, transformando suas crenças em ação para tentar mudar o mundo.

Trata-se de um trabalho de resgate histórico e de reflexão conceitual apresentado em três partes temáticas e oito capítulos, nos quais o enredo coloca as mulheres da região Pacífica como as que estão sempre dispostas a gestar a coletividade e as distintas formas de sociabilidade tecendo as redes que as conectam com a sua realidade e com as lutas coletivas. São mulheres conectadas às marés, seja nas comunidades de mangue, seja nas comunidades de rio, que são as principais atividades de sobrevivência que elas exercem, nos rios, nas margens dos rios, do manguezal, da entrada ao mar.

Raça e gênero na construção das subjetividades

Na primeira parte, “A construção das subjetividades: etnia/raça e gênero”, a autora concentrou-se em explorar etnograficamente o lugar que a etnia/raça e o gênero ocupam na construção das subjetividades no território analisado. A autora demonstra como a trajetória de vida e o compromisso militante costuraram os papéis femininos e de liderança dessas matronas, como parteiras, marisqueiras, rezadeiras, cantadoras e conselheiras. Paula Balduino afirma que seu livro propõe uma análise da classificação étnico-racial na região, “buscando compreender os matizes, as tensões e articulações das concepções e experiências colombo-equatorianas em torno do antirracismo e da luta por direitos territoriais ancestrais de comunidades negras”. Segundo ela, tanto na Colômbia como no Equador, “o pertencimento étnico-racial parece estar fundamentalmente territorializado”.

Paula Balduino explica que as categorias de classificação étnico-racial surgem das narrativas de mulheres negras/afrodescendentes dos rios do Pacífico e em sua compreensão, elas são matronas, ou seja, mulheres que constroem redes de irmandade política e afetiva, conectando doméstico e público. Para além disso, “a partir de suas posições de parteiras, curandeiras, rezadeiras, cantadoras, marisqueiras e/ou conselheiras, tornaram-se lideranças políticas em organizações afro/negras, em organizações de mulheres e de mulheres negras”.

A autora chama a atenção para a construção da categoria social “raça” ao se referir ao conceito, conforme o estudo do sociólogo peruano Aníbal Quijano. Em seu texto “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina” (2005), Quiijano chama a atenção para o processo de constituição da América e do capitalismo colonial/moderno e eurocentrado, que se constituiu de acordo com a ideia de raça, que, segundo ele, trata-se de uma construção mental que expressa a experiência básica da dominação colonial, que desde então permeia as dimensões mais importantes do poder mundial, incluindo sua racionalidade específica: o eurocentrismo. Perceba-se que “esse eixo tem, portanto, origem e caráter colonial […]. Implica, consequentemente, um elemento de colonialidade no padrão de poder hoje hegemônico”, o que expressa a colonialidade do poder com relação à história da América Latina.

Balduino mostra o essencial do pensamento de Quijano ao apontar que, para ele, raça é o primeiro critério fundamental de distribuição da população mundial nas estruturas de poder da sociedade formada a partir do processo de colonização. “Aplicou-se aos diversos povos originários que viviam na América quando da colonização, bem como aos também diversos povos africanos, traficados para as Américas como escravos, no mesmo contexto da colonização. E assim serviu como ‘modo básico de classificação social universal da população mundial’”.

Quanto ao gênero, a autora questiona “de que maneiras opera a identificação como mulher e como homem?”. Segundo ela, o questionamento faz sentido desde a perspectiva, conforme o pensamento de Henrietta Moore (2007), de que seres humanos são seres biologicamente  culturais, que se desenvolvem como pessoa por meio de relações intersubjetivas, em um ambiente específico. Ou seja, tornar-se um ser sexuado, por sua vez,  conforme professa Moore, “significa ser marcado pela diferença sexual, reconhecer os limites dessa diferença, lutar com o fato de não se poder mapear facilmente nos corpos machos e fêmeas a masculinidade e a feminilidade”. Para além disso, “tornar-se um ser sexuado é uma condição para a subjetividade e para que a sociedade se faça”.

O território, seu povo e sua cultura

Na segunda parte, “As mulheres são como as águas, crescem quando se encontram”, são analisados os processos organizativos desenvolvidos pelas populações negras e o lugar que suas mulheres ocupam no território, no qual a água é personagem principal. A partir daí, a autora elabora o conceito “território-água” para refletir sobre os aspectos materiais e imateriais das dinâmicas territoriais e da organização social dessas matronas que se desenvolvem nas ribeiras dos rios, que deságuam no oceano Pacífico. São as águas que tecem as dinâmicas de povoamento negro na região. Paula Balduino explica que ao longo da história, rios são eixos da organização social negra. Assim, como conceito, “o território-água alude à fluidez, o que permite compreender peculiares dinâmicas territoriais a partir das quais se imiscuem fronteiras entre rural e urbano, entre doméstico e político, entre Estados-nação. Nesse sentido, o território-água assinala aspectos geográficos e simbólicos”.

Conforme relata a professora Mara Viveros-Vigoya, co-orientadora da pesquisa de Paula de Melo e autora do prefácio do livro, a territorialidade “é o que confere o sentido de pertencimento à coletividade negra e o que constrói politicamente a possibilidade de reivindicar uma etnicidade a partir da experiência negra”. Paula Balduino complementa que a territorialidade afro-pacífica consiste “em uma construção política baseada na vivência do território-água, articulada a uma ideia de permeabilidade entre rural e urbano”.  Mares e rios, explica a autora, são o esteio na vida de muitas mulheres, elas circulam entre o campo e a cidade, entre o rio e o povoado.

Utilizando os ensinamentos de Inês Morales, uma das mulheres com quem a autora conviveu durante sua pesquisa, Paula Balduino ressalta que a territorialidade é uma apropriação e uma construção cultural do espaço, sustentada em fluxos ou percursos naturais – rios e mar – e culturais – práticas produtivas, migrações e retorno. Segundo ela, “o mar orienta a percepção da espacialidade,  mas é em torno dos rios que as dinâmicas de apropriação cultural do espaço consolidam-se. Os rios, de modo geral, são elementos de conexão. São o vetor de comunicação entre a coletividade negra, desde o povoamento da região”. Portanto, as águas são também terreno do simbólico, pois, de acordo com a autora, o território-água expressa a imagem que o povo afro-pacífico constrói sobre si mesmo em suas práticas identitárias, ao levar em conta que o território é a inscrição espacial da ancestralidade.

A práxis contra a violência

Na terceira parte, “Violências”, a autora explora, a partir das narrações das mulheres, o impacto e os múltiplos sentidos da violência sociopolítica e da violência de gênero nas relações interpessoais nas comunidades analisadas pela autora. O processo histórico demonstra que a violência racista tem uma história muito longa, que vem desde os tempos da escravidão e como essas práticas ainda hoje têm reproduzido e agravado o racismo, ocasionando sofrimentos, perdas e constrangimentos diariamente. Paula Balduino alerta que a ação feminina dá-se em um contexto de violência nas relações interpessoais de gênero e de violências sociopolíticas e que as matronas “são peça-chave na resistência do povo afro-pacífico. Elas resistem à violência sociopolítica insistindo em manter as redes de reciprocidade, os vínculos afetivos e políticos, a solidariedade intraétnica”.  E, ao participar de organizações políticas, essas mulheres têm na defesa da territorialidade a defesa dos vínculos sociais.

A autora chama a atenção ao que disse Hanah Arendt sobre como o poder, a violência e a autoridade comumente aparecem de forma combinada, especialmente no que diz respeito à cotidianidade das mulheres afro-pacíficas. Hannah Arendt apontou para o debate de importantes questões que nos desafiam, tais como o sentido da política e o papel da ação no espaço público para o entendimento do mundo contemporâneo, com ênfase na exigência do pensar e do agir, questões para ela fundamentais para a resistência às tiranias. Em seu pensamento homens e mulheres são livres enquanto agem, “pois ser livre e agir são uma mesma coisa”.  

Nesse contexto, Paula Balduino vivenciou vínculos com as mulheres afro-pacíficas em que lhe foram narradas situações de violência e de constrangimentos de modo intenso e dramático em um cenário de guerra entre exércitos, guerrilheiros e grupos paramilitares e até mesmo em disputa pelos seus territórios. Mas a violência de gênero deixa marcas insuperáveis, tanto em relação à violência doméstica como aos abusos sexuais. Nesse sentido, “a naturalização da agressão sexual às mulheres negras é um legado do projeto colonialista”, diz a autora recorrendo à Sueli Carneiro, que ressalta “a intrínseca marca de gênero na fisiologia desse projeto, que tinha a violência sexual como modalidade estruturante. Ou seja, no processo de escravização, o padrão das relações entre senhores brancos e mulheres negras escravizadas era a violência sexual”. Mas a autora também viu um cenário de resistência, conforme ela narra:” As reações das mulheres à violência são intensas. Não sofrem a violência passivamente. No âmbito das relações interpessoais, elas acionam recursos diversos: também agridem fisicamente os companheiros agressores, defendem-se espiritualmente, separam-se dos agressores, coletivizam-se e fortalecem-se entre si”.

A leitura do livro de Paula Balduino é um incentivo a encontrar a discussão teórica na prática dessas mulheres matronas. Ao buscar o encontro com o rosto e a realidade de outras mulheres, em outro território, a autora profetiza uma práxis da libertação e suas implicações na resistência dessas mulheres em busca de “ser mais”, em uma nova convivência humana na busca permanente da utopia presente nas razões pelas quais se persegue o propósito libertador para a superação da pobreza e da exclusão. As mulheres do livro de Paula Balduino, que contam suas histórias de sobrevivência e se movem para cortar cercas, demonstram, no pulsar de suas narrativas, a força coletiva de que é necessária para entrelaçar passado e futuro.

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