RESENHA
Vidas migrantes: diálogo e acolhimento
Por Inês Ulhôa
Livro publicado pela Editora UnB aponta ruptura de paradigmas em relação a experiências de mediadoras socioculturais e o que elas representam no contexto migratório e no reconhecimento de direitos humanos a pessoas em diáspora
“Vidas paralelas migrantes: experiências de mediadoras socioculturais na França”, organizado por Maria da Graça Luderitz Hoefel, Denise Osório Severo, Claudia Washington e Ximena Pamela Díaz Bermúdez, é um livro precioso para a reflexão sobre o tema das migrações internacionais em seus aspectos humanitários. O próprio título da obra faz emergir questões a respeito de interações sociais e culturais a partir dos saberes experienciais que servem como base para a intervenção das mediadoras sociais e culturais com a sensibilidade que requer essa práxis de acolhimento.
É curioso que no momento em que esta obra é lançada falando de direitos humanos a pessoas migrantes, o império (diga-se Estados Unidos da América) ataca novamente, fazendo reviver o repúdio e seu plano de banimento dos imigrantes sob a gestão Donald Trump, o que nos faz recordar de manifestação realizada nas ruas de algumas cidades dos EUA, em abril de 2006, em que imigrantes ilegais cantavam o hino nacional estadunidense em espanhol como uma maneira de se fazerem ouvir, enquanto o Congresso discutia uma nova legislação para os imigrantes, a respeito de residência e cidadania. A performance cantada em várias vozes, em sua grande maioria de imigrantes de língua espanhola, e nas ruas, espaço público no qual imigrantes ilegais nos EUA não têm o direito de se reunir, foi inspirada no sucesso do hit solidário da música We are the world, cantada por muitos artistas ao redor do mundo.
Este fato é narrado no livro “Quem canta o Estado-nação?”[1], publicado pela Editora UnB, da Coleção Tempo Agora, no qual Judith Butler e Gayatri Chakracorty Spivak promovem uma análise aprofundada daquela manifestação, onde havia claramente a existência de um “nós” e do “nosso”, que pudesse dar sentido a uma busca de reconhecimento de uma identidade, de um pertencimento, daqueles imigrantes e da prática de exclusão constante das minorias por parte dos estados nacionais, principalmente devido à reação do então presidente dos EUA, George W. Bush, que disse, à época, que o hino nacional só deveria ser cantado em inglês. Quem, então, poderia cantar o Estado-nação? – este é o caminho percorrido para a reflexão de Butler e Spivak sobre os “sem-estado” (“aqueles alijados dos modos jurídicos de pertencimento”), ou “minorias nacionais”, ou de como os Estados-nações, principalmente nos dias atuais, buscam se constituir exatamente pela expulsão e exclusão dessas minorias, suspendendo modos de proteção legal e deveres, provocando em si mesmo uma causa de mal-estar.
O papel sociocultural de mediadoras como agentes ativos no acolhimento
Como as migrações têm alcançado muitas dimensões e complexificações no atual momento, é crucial o alerta da existência do direito aos direitos. Porém, em que situação esses direitos podem ser garantidos às pessoas “sem-estado”, tendo em vista a propensão dos Estados a expulsar e a privar de direitos essa parte indesejada da população? No entanto, “a migração é importante também pela forma como organiza e reorganiza as sociedades, tornando-as mais diversas e complexas”[2]. Exatamente isto que a obra “Vidas paralelas migrantes” procurou mostrar com a intervenção de mediadoras socioculturais em atividade na França, reforçando o aspecto de que “os migrantes podem desafiar ativamente os constrangimentos estruturais, como pobreza, exclusão social e restrições governamentais”[3].
Juntar histórias, memórias e acolhimentos são os alicerces da arte de ordenar conteúdos com a relevância dos sentidos que a proposta desse projeto requereu, com base na epistemologia freireana, sobretudo na denúncia acerca das condições em que vivem milhões de seres humanos, que, localizados nas periferias, clamam por uma vida digna, ao promover a conscientização e a transformação de pessoas em sujeitos políticos, buscando refletir sobre os caminhos possíveis de construção coletiva de processos emancipatórios. “Vidas paralelas migrantes” retoma, igualmente, debates de fundo sobre as questões que legitimam o papel das mediadoras, por intermédio de seus saberes experienciais, possibilitando que grupos sociais estrangeiros e imigrantes possam construir seus próprios interesses coletivos e intervirem no debate público.
O projeto do qual resultou este livro – Projeto Vidas Paralelas: Perspectivas Brasil/França –, foi constituído em parceria pela associação Archives de l’Immigration Familiale (Arifa) e Universidade de Brasília, inserido no Programa Capes/Cofecub (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior/ Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária com o Brasil). As oficinas realizadas na França que culminaram na “Exposição PVP Migrantes França 2018: L’atelier des oiseaux – mediadoras socioculturais na Associação Arifa” tiveram o objetivo de aumentar a visibilidade do cotidiano, cultura e trabalho dos participantes do projeto, bem como a valorização sociocultural e a promoção da autonomia das mulheres, no sentido de provocar a reflexão crítica, com especial atenção a aspectos do cotidiano dos migrantes que necessitam o acolhimento.
O livro, com um lindo projeto gráfico de Wladimir de Andrade Oliveira, é repleto de ilustrações de pássaros, que representam, no dizer de alguns participantes das oficinas realizadas pelo Projeto Vidas Paralelas Migrantes, “uma espécie de ícone, uma expressão imagética capaz de plasmar o profundo desejo de liberdade evocado pelas mediadoras culturais”. Também como se expressou a imigrante Ara de Lear: “Eu fiz um passarinho, algo que se mexe. E a ideia que me inspirou foi a liberdade de conhecer outros caminhos desconhecidos, eu acho que é um símbolo interessante. A ideia de voar, imaginar e realizar nossa liberdade”. Uma revelação que impulsiona compreender o impacto e as dinâmicas das migrações.
[1] BUTLER, Judith; SPIVACK, Gayatri Chakracorty. Quem canta o Estado-Nação?. Coleção Tempo Agora. Brasília, Editora UnB, 2018.
[2] Conf. CAVALCANTI, Leonardo; TONHATI, Tânia; ARAÚJO, Dina; BOTEGA, Tuila. Um convite às teorias e conceitos sobre migrações internacionais. In Dicionário Crítico de migrações internacionais. Brasília: Editora UnB, 2017.
[3] Idem, Ibidem.
