RESENHA
Segato: pesquisa e paixão
Por Inês Ulhôa
Livro publicado pela Editora UnB e OAB revela a paixão com que a professora Rita Segato se entregou à pesquisa e à orientação de estudos que dizem respeito à história de nossos dias
Os livros são e sempre serão repositório de conhecimento e de ideias. Nada mais adequado para os tempos sombrios de hoje em que a literatura, as artes, o pensamento crítico são ignorados para dar lugar ao bombardeio de fabricação de mentiras com potencial para desmoralizar a razão. À medida que o mundo virtual toma conta de nosso cotidiano, tornou-se um desafio o incentivo à leitura de livros e de revistas, este fazer solitário, considerado uma das pedras angulares da vida cultural e universitária.
Por isso, nada mais animador que o livro dedicado à trajetória, ao pensamento e a coerência de Rita Segato, “uma das principais expressões das humanidades no continente latino-americano e no mundo contemporâneo”, nas palavras de Volnei Garrafa, prefaciador da obra.
O livro “Encontro com Rita Segato por sua linhagem: memórias e memorial”, publicado pela Editora UnB em parceria com a Editora OAB, escrito por muitas vozes que tiveram contato direto com a pesquisadora, pode ser considerado um guardião da memória de suas orientações, de seus conceitos, da complexidade de seu pensamento e de seu modo de fazer e de pensar a cultura com extraordinária capacidade narrativa.
Como aponta o título, o livro está estruturado em duas partes. A primeira refere-se às Memórias, aquelas que não podemos deixar escapar, como dizia Ecléa Bosi: “a memória é a faculdade épica por excelência. Não se pode perder, no deserto dos tempos, uma só gota da água irisada que, nômades, passamos do côncavo de uma para outra mão, a história deve reproduzir-se de geração a geração, gerar muitas outras, cujos fios se cruzem, prolongando o original, puxados por outros dedos”[1]. A segunda parte traz o “Memorial: um olhar retrospectivo – seleção de relatos para uma memória possível da vida de uma professora”, texto produzido e lido por Rita Segato no evento em que foi agraciada com o título de Professora Emérita da Universidade de Brasília, em 6 de novembro de 2018. Sua publicação nesta obra é justificada pela própria autora por ela entender que “descrever esse caminho é a melhor forma de deixar à vista as escolhas, as perguntas, descobertas e lutas que realizei e que desenham o perfil mais acabado de quem sou”.
Os textos que compõem a obra exploram o essencial ao pensamento contemporâneo e cumpre o papel de contribuir, conforme destacado pela professora Tânia Mara de Almeida, organizadora da obra, para o desenvolvimento de um pensamento latino-americano autônomo e influente, emergente e insurgente, de nossa realidade e direcionado ao enfrentamento de diversas violências e opressões, como as de gênero, raça/etnia e classe imprimido por Rita Segato. Tânia Mara registra ainda que o Memorial da homenageada dá a exata compreensão “de como foi se dando a elaborada arquitetura de seu pensamento, sendo entretecido com a realização de ‘uma antropologia por demanda’, como também de suas desafiadoras frentes de batalha, as quais não foram poucas, e significaram sempre avanços coletivos a marcarem histórias de pessoas, grupos, universidades, campos disciplinares e nações, a exemplo de ter sido coautora da primeira proposta de ação afirmativa para o ingresso de estudantes negros(as) e indígenas na educação superior no Brasil (1999) e ter sido perita em complexos e reparadores processos de direitos indígenas, de mulheres e de lesa humanidade em várias partes da América Latina”.
O livro é uma contribuição relevante ao debate de questões cruciais ao pensamento crítico, reunindo conceitos e teorias, além de jogar luz potente sobre as conexões das ciências sociais e humanas com os direitos humanos ocupando novos espaços de diálogo, em que o exercício de memória individual e coletiva se faz presente. Dessa forma, reconhece-se que a história é tempo de possibilidades, não de determinismos. Por isso, entende-se que as questões que nos desafiam encontram-se na exigência do pensar e do agir, tal qual a interpretação de Hannah Arendt[2], ao referir-se à resistência às tiranias.
Seria esse veredito válido para as reflexões que nos legou Rita Segato? A percepção disso está clara nos ensaios que compõem esta obra. Afinal, uma das dádivas que Rita Segatto ofertou a todos e todas que a acompanham “foi a de contribuir marcadamente a nos constituir autônomas(os) e libertas(os) para a insurgência crítica, autoral e criativa no ato de saber o mundo e saber-se”, observa Tânia Mara.
Formadora de conceitos-chave para entender o mundo contemporâneo, como “antropologia por demanda”, e de definições como “raça” sendo “a marca nos corpos da posição que ocuparam na história colonial, lida pelos olhos que conhecem essa história”, entre outros, Segato indica que, tanto no pluralismo jurídico quanto no pluralismo bioético, “os povos são entendidos como sujeitos coletivos que perseguem metas de realização de bem-estar diferentes e concepções diferentes sobre o que seja a vida”.
Definições como essas fizeram a importância que a sua filha Jocelina Laura, uma das autoras desta obra, deu a seu legado feminino sobre os seus estudos e sua própria existência: “Se existe algo que uma mãe, especialmente Rita, pode repassar a uma filha, é que nunca fugimos da nossa posição de mulher. Em um universo hegemônico branco, colonizado e patriarcal, ser mulher e do Sul é um recorte do qual nunca fugimos. Antropóloga, feminista, latino-americana, integrante da Universidade de Brasília, como filha herdei certos adjetivos que hoje me definem com mulher e pessoa. Não somente a herança de ser mulher, mas a herança de luta. O feminismo visto desde uma perspectiva decolonial é um marco teórico que carrego e carregarei sempre em minha trajetória, Não é um modismo ou somente uma corrente teórica, é minha memória. O legado teórico que tenho para contar e que me conta, como sou e como vou-me sendo”.
Ao todo, o livro contém quinze textos que expressam preciosas indicações ao saber e ao sentido da vida, e podem acessados gratuitamente no link
[1] BOSI, Ecléa. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: Lembranças de velhos. São Paulo: Cia Letras, 2010, 16ª ed.
[2] ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005, 10a. edição, 5a. Reimpressão.
