RESENHA
A vida militante de José Martí e a atualidade de seu pensamento
Por Inês Ulhôa
“O Partido Revolucionário Cubano de José Martí: concepção ético-política original”, livro lançado pela Editora UnB, organizado por Dionísio Lázaro Poey Baró e Maria Auxiliadora César, é um registro da atualidade e da pertinência do pensamento martiano.
Quem foi José Martí? Quantos hoje conseguem responder a esta pergunta intrigante? Intrigante porque estamos falando de um personagem com esta característica. José Martì foi de tudo um pouco, mas principalmente um revolucionário a serviço da luta política de seu tempo pela independência de seu país.
José Martí nascido na cidade de Havana, Cuba, em 1853, conviveu desde a infância com os horrores da colonização espanhola. Assistiu de perto a escravidão imposta ao seu povo pelos colonizadores. Cresceu pensando na construção da ruptura com a lógica colonialista, quando publica o semanário La Patria Libre, com poemas em defesa de sua pátria. E, foi assim, que o jovem estudante Martí, aos dezesseis anos, na agitação política do movimento estudantil, enfrentou a repressão e foi preso, julgado e condenado a seis anos de prisão com trabalhos forçados.
Desterrado para a Espanha, Martí não abandona seus ideais. Embora muito doente em consequência de seus anos de prisão, forma-se em Direito e mantém no exílio sua militância ativa e publica o folheto “O presídio político em Cuba” em que denuncia o colonialismo da guerra, iniciada em 1868 com a luta pela libertação de Cuba do domínio espanhol que se estendeu por dez anos.
Após essa publicação vieram outras na reflexão martiana contra o colonialismo em suas várias viagens pela França, México, Nova York, Guatemala, aprofundando suas análises sobre a realidade dos povos latino-americanos. Cuba já vivia sob a primeira República espanhola, proclamada em 1873, e sob domínio dos liberais. Martí regressa a Cuba em 1878, com o término da guerra, já casado, e quando nasce seu filho José. No ano seguinte, é novamente desterrado para a Espanha por integrar o movimento que organizava retomar a luta armada contra o poder colonial. Sua esposa regressa a Nova York e se separa dele.
Sua dedicação à causa revolucionária o leva a construir as bases e o Estatuto do Partido Revolucionário Cubano, que é, finalmente, proclamado em 1892 e trazia as suas concepções políticas no rumo de uma república trabalhadora e democrática, “uma nação capaz de assegurar a felicidade durável de seus filhos e de cumprir na vida histórica do continente, os deveres difíceis que sua situação geográfica lhe assinala”. Está registrado no artigo quarto do Estatuto que o Partido Revolucionário Cubano se propõe a “fundar, no exercício franco e cordial das capacidades legítimas do homem, um povo novo e de sincera democracia, capaz de vencer, pela ordem do trabalho real e do equilíbrio das forças sociais, os perigos da liberdade repentina em uma sociedade constituída para a escravidão”.
José Martí, considerado um dos heróis da liberdade e da soberania cubana, regressa a Cuba em 1895 para, junto com outros companheiros, organizar a guerra pela libertação de seu país do jugo colonial. A Guerra de Independência Cubana durou três anos e, infelizmente matou José Martí logo no início dos conflitos, em 19 de maio de 1895.
De acordo com os organizadores da obra recém-publicada pela Editora UnB, a ética e a política eram indissolúveis na ideologia de Marti, como a sua posição de que um Partido deve ter o sentido, não de adulação, mas de justiça; não de busca de saudações, mas de verdade; não de privilégios individuais, mas de ganhos de uma pátria livre.
Marti insistia que a educação e a cultura são peças fundamentais inseparáveis para o processo de libertação. Para ele, “educar es depositar en cada hombre toda la obra humana que le ha antecedido; es hacer a cada hombre resumen del mundo viviente hasta el día en que vive”. Nessa perspectiva, Martí direcionou seu interesse para a formação política dos estudantes cubanos e, assim, escreveu e publicou para os jovens o periódico El Edad de Oro, que teve quatro números publicados.
Em O Partido Revolucionário Cubano de José Martí, Dionísio Lázaro Baró e Maria Auxiliadora César mostram que Marti pensava a sociedade tendo como parâmetro o ser humano. Segundo eles, para fazer frente aos imensos perigos que a colonização espanhola impunha aos cidadãos cubanos, “o projeto político martiano preconizava a unidade estreita de todas as classes e setores sociais interessados na independência: operários, empresários, camponeses, negros, brancos, espanhóis e todos aqueles que desejassem viver numa nação democrática, onde os interesses das massas populares fossem levados em consideração e jamais esquecidos”.
A composição do livro, com textos selecionados que refletem a atualidade do pensamento de José Marti, é uma rica contribuição significativa à libertação humana e um convite ao reforço do pensamento crítico, tão urgente nos dias atuais. É leitura indispensável para aqueles que se dedicam à compreensão e transformação da realidade opressora colonialista.
